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Novo Mundo - Vinhos e vinhedos, um pouco de história e estórias


Antes de iniciar a sua leitura, veja a primeira postagem desta série sobre o

Velho Mundo.



Novo Mundo


A história relata que, em 1000 a.C., os vikings chegaram às Américas e já encontraram uvas nativas em abundância, tanto que denominaram a nova terra de Vinland – o lugar das uvas e vinhos. Entretanto, as uvas encontradas não eram capazes de produzir bons vinhos ou, sequer, aceitáveis. 500 anos passaram-se e nenhuma produção de vinho nas Américas foi bem sucedida. As uvas eram doces, conhecidas, hoje, como híbridas ou uvas de mesa.


No mesmo cenário encontrado pelos vikings, os olhos de Colombo encheram-se de cobiça ao avistarem tantos parrerais, dispersos mas, ainda sim, uvas. Qual não foi a ingrata surpresa ao descobrir que tais uvas eram incapazes de produzir bons vinhos, no entanto, uma coisa ficou clara, naquela terra, plantando-se dá!


Em sua segunda viagem à América, em 1493, vislumbrando terras e clima, Colombo trouxe na bagagem algumas sementes européias e resolveu plantar, o que se espalhou rapidamente por todo o continente. Ainda sem tradição vitivinícola, os parreirais cresciam por conta e os vinhos eram produzidos em pequenas quantidades, apenas para uso particular ou rituais religiosos.


Já no século XVI, os conquistadores espanhóis chegaram à América do Sul, dominaram o povo inca, conquistaram o Peru, Equador, Chile e Argentina. E, aproveitando-se da tecnologia de irrigação desenvolvida pelos povos Incas, Francisco Pizarro, representante da coroa espanhola, fundou a primeira vinícola em Lima, Peru, com as vinhas trazidas da Europa. Os jesuítas que traziam consigo as vinhas para utilização em seus rituais religiosos também contribuíram com a propagação das vinhas e, no final do século, o Chile já contava com a presença de várias vinícolas produzindo vinhos com as uvas Pais, Muscates e Torrontés Riojano.


Em meados do século XIX, uma grande mudança aconteceu, a construção de novas vinícolas e a chegada de novas tecnologias, a América começa a despontar com vinhos de qualidade, mas parece que a tragédia da Filoxera buscava instalar-se no mundo. Enquanto todos tentavam utilizar os mais variados recursos para eliminar a praga, inclusive destruindo enormes plantações, o Chile não foi vitimado pela situação. Sua condição geo-climática o protegeu, de um lado o Oceano Pacífico, do outro a Cordilheira dos Andes e do outro o deserto do Atacama, barreiras naturais que impediram a entrada da praga. Com isso, as vitis vinífera europeias puderam sobreviver e, ainda hoje, suas cepas são plantadas diretamente no solo (pé-franco), sem necessidade de enxertá-las.


Enxertá-las, sim! Esta foi a técnica encontrada para resgatar os vinhedos quase devastados. A técnica consiste na implantação do caule da videira europeia (cavaleiro), no caule da videira americana (cavalo), ligado à raiz. Os dois caules, já amarrados, vão se desenvolver juntos, produzindo uvas com qualidade europeia e resistência americana.


Essa história tem também outra curiosidade. A cepa carmenere, considerada totalmente extinta, foi substituída basicamente pela merlot, que se mostrava menos sensível. Décadas passaram-se e, em 1994, um ampelógrafo francês, chamado Jean-Michel Boursiquot, observou que algumas cepas merlot demoravam muito a amadurecer e estudou-as. Concluiu que eram cepas provenientes de Bordeaux, a Carmenere, que foi cultivada em meio às merlots e, inadvertidamente, fora preservada. Embora não seja a mais plantada, hoje a carmenere é uma das cepas mais importantes da região, por sua exclusividade chilena.


Pós praga, as videiras precisavam ser protegidas e percebeu-se que as roseiras eram atacadas antes das uvas, pois são mais frágeis, vulneráveis. Desde então, podemos observar à frente de cada fileira de videiras uma roseira plantada. Elas são um alerta para um possível ataque de pragas, além de uma certa poesia no ar, ou melhor, na terra.


Chegamos aos dias atuais e chamamos de velho mundo os países europeus, que são reconhecidos por sua antiguidade e qualidade surpreendente: França, Espanha, Itália e Portugal. O novo mundo, por sua vez, não deixa nada a desejar quanto à qualidade de seus vinhos. O investimento em tecnologia, como refrigeração, controle da temperatura do processo de fermentação e os estudos das varietais permitiram um grande avanço nas produções.


Hoje



O vinho viaja de todos os lugares para todos os lugares. É uma das bebidas mais consumidas em todo o mundo. Segundo dados do Wine Institute, o Vaticano é o campeão no consumo de vinhos frente ao mercado global, isso se deve ao fato dos rituais religiosos praticados no país e, ainda segundo o instituto, a França, berço das vinhas no mundo, ocupa a terceira posição em consumo, Portugal a oitava, a Itália em décimo primeiro e nosso vizinho Uruguai, a última vaga na lista dos 15 maiores consumidores de vinhos global. O Brasil, segundo o Instituto do Vinho da Califórnia, ocupa a 96ª posição (dados de 2010).

No Brasil, o maior estado consumidor é o Rio Grande do Sul, não por mera coincidência, também é o maior estado produtor, o consumo é de aproximadamente 3,8 litros per capita/ano e, embora São Paulo seja o maior comprador do país, seu consumo per capta é de 2,75 litros, o Rio de Janeiro ocupa a segunda posição com um consumo per capita de 3,4 litros.


Se compararmo-nos aos nossos vizinhos, estamos bebendo pouco, enquanto nosso consumo máximo é próximo a 4 litros por pessoa, Uruguai, Argentina e Chile superam 20 litros.


A tradição do vinho à mesa no Velho Mundo chegou, também, aos nossos vizinhos. O vinho é comumente consumido durante as refeições, influenciadas por seus pais ou avós, as crianças compartilham desse ritual, passando assim a tradição de geração em geração. Já na cultura brasileira, o vinho não faz parte da cesta de alimentos e é consumido com muito mais moderação, sendo o acompanhamento perfeito para aquele jantarzinho, aquela comidinha especial, em noites frias (tintos) ou dias ensolarados (brancos ou frisantes). Mas se considerarmos minha rede de contatos, acredito que essa estatística é equivocada no nosso caso. A cerveja ainda é a preferência nacional, afinal, nosso clima é bem favorável para o líquido dourado, mas, por outro lado, os amantes do vinho não trocam seus tons rubrus por nada. Dessa forma, acredito que uma minoria populacional seja responsável por todo o consumo nacional, daí subimos de 4 litros para, talvez, superar nossos vizinhos.


Fontes dos dados: Revista O Globo, Vinhopedia e Wine Institute


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Chef Glau Zoldan

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